MULHER NÃO É TAMBOR!

A Rede Ma-g-dalena Internacional de Teatro das Oprimidas em luta pelo fim da violência contra as mulheres em Guiné-Bissau e no mundo.

Por Bárbara Santos – Centro de Teatro do Oprimido, Rio de Janeiro
06/12/2022 – 18:00

Registros: Ludivine Panot

De 21 a 30 de novembro de 2022, coordenei a equipe de trabalho com mulheres de diferentes etnias da Guiné-Bissau e representantes de Moçambique, Brasil, França, Alemanha, Itália, Espanha, Chile, Guatemala e Argentina reunidas no IV Encontro da Rede Ma-g-dalena Internacional – RMI – de Teatro das Oprimidas, no Centro de Teatro do Oprimido CTO-Bissau, com o lema “Pelo fim da violência contra as mulheres!”.

O Teatro das Oprimidas começou a ser sistematizado em 2010, dando origem à RMI, uma rede internacional composta por grupos de artistas-ativistas da América Latina, Europa e África, que criam produções artísticas (peças teatrais interativas, performances, exposições de artes visuais, demonstrações públicas, etc.) para denunciar, discutir e transformar as injustiças relacionadas às diferenças entre os gêneros. Depois de uma década de atuação, realizando encontros, seminários e festivais (nacionais, regionais e internacionais), pela primeira vez, a RMI promoveu uma atividade internacional em território africano.

Organizamos uma intensa programação que contou com laboratório de criação estética, seminário teórico e de troca de experiências e mostra pública de espetáculos de grupos da Guiné-Bissau, França, Brasil e Alemanha, no Centro Cultural Franco Bissau Guiné e no Centro Cultural Português. Um dos pontos altos do encontro foi a realização de uma marcha que atravessou o centro da capital.

Para além de violências específicas do território guineense, como mutilação genital feminina (prática que é crime desde 2011 no país), casamento forçado e precoce, as participantes analisaram as similaridades das formas de violência que enfrentam cotidianamente nos diferentes países. Como resultado dessa interação estética, criamos a performance coletiva “Mulher não é Tambor!”, título inspirado na campanha criada por ativistas guineenses, em 2020, para denunciar e visibilizar o aumento de violência doméstica contra as mulheres durante a pandemia do COVID-19.

Com uma produção estética potente e atraente, no dia 25 de novembro, Dia Internacional da Eliminação da Violência Contra a Mulher, as participantes do encontro marcharam pelo centro de Bissau contando com o apoio de diversas organizações de defesa dos direitos das mulheres e de pessoas que se uniram espontaneamente ao grito de “Basta!” de violência contra as mulheres, uma demonstração de que a superação da violência de gênero é um problema de toda a sociedade.

Enquanto ainda comemorávamos o sucesso da marcha e do apoio que recebemos, três dias depois, fomos surpreendidas pela iniciativa de alguns homens que organizaram um ato público reivindicando o fim da violência das mulheres contra os homens. Quase como se fosse uma “resposta” à marcha que realizamos, uma espécie de tentativa de minimizar o impacto de nossa atividade e tirar a legitimidade de nosso lema.

Apesar de dados alarmantes de assassinatos de mulheres por serem mulheres (prática conhecida em todo o mundo como feminicídio), violações sexuais, psicológicas e físicas, divulgados por reconhecidos órgãos internacionais como Nações Unidas, esses homens inverteram nossa narrativa e marcharam com o lema “Pelo fim da violência contra os homens!” estampado em suas camisetas.  

Na tentativa de desqualificar o slogan “Mulher não é tambor” criaram a paródia: “Homem não é Bombolum!”, referencia a um grande instrumento de madeira, utilizado para garantir a comunicação entre diferentes grupos étnicos na Guiné-Bissau, por meio de batidas específicos que podem atravessar vários quilómetros de distância.

Os manifestantes se apresentaram como vítimas de uma suposta violência das mulheres contra eles, contrariando todas as estatísticas nacionais e internacionais. Em um ato de irresponsabilidade social, trataram fatos pontuais, exemplos particulares, como se representassem prática cotidiana. Como se exceção fosse regra.

Nós, integrantes da Rede Ma-g-dalena Internacional – RMI – de Teatro das Oprimidas (www.teatrodelasoprimidas.org), participantes desse IV Encontro RMI em Bissau, nos posicionamos de forma contrária a qualquer ato de violação à integridade física e/ou psíquica de qualquer pessoa humana. Ao mesmo tempo, entendemos ser fundamental a divulgação de dados estatísticos oficiais (nacionais e internacionais) que não deixam dúvidas sobre a desproporcionalidade das violências que as mulheres enfrentam na Guiné-Bissau e em todo o mundo por serem mulheres.

Convocamos os organizadores desse ato a agirem com responsabilidade, divulgando esses dados em suas redes sociais e difundindo-os nos meios de comunicação que tenham acesso.

Se nós mulheres saíssemos à rua para nos manifestar a cada caso de violência grave, envolvendo assassinato, mutilação e violação, não sairíamos da rua e estaríamos em marcha permanente.

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