TEATRO DO OPRIMIDO

Depois de exilado pelo regime militar, Boal se dedicou a pesquisar formas teatrais que pudessem ser úteis para oprimidos e oprimidas, criando condições para ultrapassarem o papel de consumidores de bens culturais e assumirem a condição de produtores de cultura e de conhecimento. Para tanto, sistematiza o Teatro do Oprimido, que poderia ser chamado de Teatro do Diálogo que, partindo da encenação de uma situação real, estimula a troca de experiências entre atores e espectadores, através da intervenção direta na ação teatral, visando à análise e a compreensão da estrutura representada e a busca de meios concretos para ações efetivas que levem à transformação daquela realidade.

 

Um método teatral que se baseia no princípio de que o ato de transformar é transformador. Como diria Boal, aquele que transforma as palavras em versos transforma-se em poeta; aquele que transforma o barro em estátua transforma-se em escultor; ao transformar as relações sociais e humanas apresentadas em uma cena de teatro, transforma-se em cidadão. Um método que busca, através do diálogo, restituir aos oprimidos o seu direito à palavra e o seu direito de ser.

 

Boal sempre insistiu que as técnicas que compõem o método do Teatro do Oprimido não surgiram como invenção individual e sim como consequência de descobertas coletivas, a partir de experiências concretas que revelaram necessidades objetivas. Cada uma das técnicas do Teatro do Oprimido representa uma resposta encontrada por Boal e pelos colaboradores e colaboradoras que acumulou ao longo de sua carreira.

ÁRVORE DO TEATRO DO OPRIMIDO

Boal sempre insistiu que as técnicas que compõem o método do Teatro do Oprimido não surgiram como invenção individual e sim como consequência de descobertas coletivas, a partir de experiências concretas que revelaram necessidades objetivas. Cada uma das técnicas do Teatro do Oprimido representa uma resposta encontrada por Boal e pelos colaboradores e colaboradoras que acumulou ao longo de sua carreira.

 

A Árvore do Teatro do Oprimido foi símbolo escolhido pelo próprio Boal para representar seu método, por estar em constante transformação e ter a capacidade de multiplicação. A árvore representa a estrutura pedagógica do método que tem ramificações coerentes e interdependentes. Cada técnica que integra o método é fruto de uma descoberta, é uma resposta a uma demanda efetiva da realidade.

 

Suas raízes fortes e saudáveis estão fundadas na ética e na solidariedade e se alimentam dos mais variados conhecimentos humanos. O solo do Teatro do Oprimido deve ser fértil, oferecer o acesso a saberes e base para criações.

 

As centenas de exercícios e jogos do arsenal do Teatro do Oprimido estão na base do tronco da árvore, sendo fundamentais para o desenvolvimento de todas as técnicas. Esse vasto arsenal auxilia a des-mecanização física e intelectual de seus praticantes, estimulando-os a buscar suas próprias formas de expressão.

Na árvore, a ética e a solidariedade são fundamentos e guias. A multiplicação, a estratégia e a promoção de ações sociais concretas e continuadas para a superação de realidades opressivas é a meta. Tudo através da democratização dos meios de produção artística, direito humano fundamental.



ESTÉTICA DO OPRIMIDO

A Estética do Oprimido, a mais recente pesquisa desenvolvida por Boal e a equipe do Centro de Teatro do Oprimido, é a seiva que alimenta a árvore, desde as raízes passando pelo tronco, atravessando galhos e folhas. A Estética do Oprimido tem por fundamento a crença de que somos todos melhores do que supomos ser, e capazes de fazer mais do que aquilo que efetivamente realizamos: todo ser humano é expansivo.


Trata-se do fundamento teórico e prático do método do Teatro do Oprimido: através de meios estéticos – que proporcionam a descoberta das possibilidades produtivas e criativas, e da capacidade de representar a realidade produzindo palavra, som e imagem – promover a sinestesia artística que impulsiona o autoconhecimento, a auto-estima e a autoconfiança; e o diálogo propositivo que estimula a transformação da realidade.

TEATRO JORNAL

O Teatro Jornal foi uma resposta estética à censura imposta, no Brasil, no início dos anos 70, pelos militares, para escamotear conteúdos, inventar verdades e iludir. Nesta técnica, encena-se o que se perdeu nas entrelinhas das notícias censuradas, criando imagens que revelam silêncios. Criada em 1971, no Teatro de Arena de São Paulo, esta técnica foi muito utilizada na época da ditadura militar brasileira, para revelar informações distorcidas pelos jornais da época, todos sob censura oficial. Ainda hoje é usada para explicitar as manipulações utilizadas pelos meios de comunicação.

TEATRO INVISÍVEL

O Teatro Invisível que, sendo vida, não é revelado como teatro e é realizado no local onde a situação encenada deveria acontecer, surgiu como resposta à impossibilidade, ditada pelo autoritarismo, de fazer teatro dentro do teatro, na Argentina. Uma cena do cotidiano é encenada e apresentada no local onde poderia ter acontecido, sem que se identifique como evento teatral. Desta forma, os espectadores são reais participantes, reagindo e opinando espontaneamente à discussão provocada pela encenação.

TEATRO IMAGEM

No Teatro Imagem, a encenação baseia-se nas linguagens não-verbais. Essa foi uma saída encontrada por Boal para trabalhar com indígenas, no Chile, de etnias distintas com línguas maternas diversas, que participavam de um programa de alfabetização e precisavam se comunicar entre si. Esta técnica teatral transforma questões, problemas e sentimentos em imagens concretas. A partir da leitura da linguagem corporal, busca-se a compreensão dos fatos representados na imagem, que é real enquanto imagem. A imagem é uma realidade existente sendo, ao mesmo tempo, a representação de uma realidade vivenciada.

TEATRO FÓRUM

A dramaturgia simultânea era uma espécie de tradução feita por artistas sobre os problemas vividos pelo povo. Até o dia em que uma mulher, no Peru, não aceitou a tradução e ousou subir ao palco para dizer com sua voz e através de seu corpo qual seria a alternativa para o problema encenado. Aí nasceu o Teatro-Fórum, onde a barreira entre palco e platéia é destruída e o diálogo implementado.  Produz-se uma encenação baseada em fatos reais, na qual personagens oprimidos e opressores entram em conflito, de forma clara e objetiva, na defesa de seus desejos e interesses. No confronto, o oprimido fracassa e o público é estimulado, pelo Curinga (o facilitador do Teatro do Oprimido), a entrar em cena, substituir o protagonista (o oprimido) e buscar alternativas para o problema encenado.

ARCO ÍRIS DO DESEJO

Nos anos de 1980, na França, Augusto Boal e Cecília Boal se deparam com opressões ligadas à subjetividade, sem relação com uma agressão física ou um impedimento concreto na vida cotidiana. Um arsenal de técnicas que analisam os opressores internalizados, o Arco-Íris do Desejo, foi a resposta a esta demanda. Conhecido como Método Boal de Teatro e Terapia, é um conjunto de técnicas terapêuticas e teatrais utilizadas no estudo de casos onde os opressores foram internalizados, habitando a cabeça de quem vive oprimido pela repercussão dessas idéias e atitudes.

TEATRO LEGISLATIVO

“No Teatro Legislativo o objetivo é trazer o teatro de volta para o coração da cidade, para produzir não catarse, mas dinamização. Seu objetivo não é para pacificar seus públicos, para tranquilizar-los, para devolvê-los a um estado de equilíbrio e aceitação da sociedade como ela é, mas, ao contrário, para desenvolver o seu desejo de mudança. O Teatro do Oprimido procura não só desenvolver este desejo, mas  criar um espaço no qual ele pode ser estimulado e experiente, e onde futuras ações dele decorrentes podem ser ensaiado. O Teatro Legislativo pretende ir além e transformar esse desejo em lei. (Devemos estar cientes de que a lei é sempre o desejo de alguém – é sempre o desejo do poderoso: vamos democratizar esse desejo, vamos fazer o nosso desejo se tornar também!)”- [Augusto Boal – Legislative Theatre: Using Performance to Make Politics, trans. Adrian Jackson (London and New York: Routledge, 2005]

GLOSSÁRIO

Arsenal do TO: Conjunto de exercícios, jogos e técnicas que são aplicados nas oficinas e cursos de Teatro do Oprimido para desmecanização física e intelectual dos participantes.

 

CTO: Centro de Teatro do Oprimido.

 

Curinga: Especialista e pesquisador do Teatro do Oprimido; facilitador do método; um artista com função pedagógica, que atua como mestre de cerimônia nas sessões de Teatro-Fórum, coordenando o diálogo entre palco e platéia, estimulando a participação e orientando a análise das intervenções feitas pelos espectadores.

 

Curingar: Estimular e mediar o diálogo entre palco e platéia, através da intervenção direta dos espectadores na ação teatral, nas sessões de Teatro-Fórum.

 

Espect-ator: O espectador da sessão de Teatro-Fórum não é um consumidor do bem cultural e, sim, um ativo interlocutor que é convidado a assumir o papel do oprimido e/ou de seus aliados para interagir na ação dramática de maneira a apresentar alternativas para outros possíveis encaminhamentos ao problema encenado; aquele que está na platéia na expectativa de atuar, entrando em cena trazendo sua alternativa para resolução do problema apresentado.

 

Estética do Oprimido: Atividades baseadas na imagem, no som e na palavra, que integram o arsenal do Teatro do Oprimido e visam estimular a descoberta das potencialidades criativas dos oprimidos.

 

GTO: Grupo de Teatro do Oprimido.

 

Metaxis: Da palavra grega Methexis, usada por Platão, significando o trânsito que, para ele, era possível entre o mundo das ideias perfeitas e o mundo real em que vivemos. No Teatro significa a capacidade do espectador de transgredir o ritual teatral convencional para intervir na imagem e transformá-la, assumindo o papel protagônico e se tornando, ao mesmo tempo, pessoa e personagem.

 

Multiplicador: Ativista sócio-cultural, oriundo de Pontos de Cultura, grupos culturais, movimentos sociais e organizações sócio-culturais, que utilizam o TO como instrumento de trabalho e de comunicação – lúdico e eficaz – na atuação comunitária, para dinamizá-la e diversifica-la para ampliar seu raio de ação.

 

Teatro-Fórum: Representação baseada em fatos reais que mostra uma situação opressiva, apresentada como uma pergunta a ser respondida e que visa à participação dos espect-atores na busca das alternativas.

 

Teatro Legislativo: Ao longo da sessão de Teatro-Fórum, os espectadores elaboram propostas escritas de encaminhamento de ações concretas, as quais são sistematizadas por especialistas e votadas pela platéia. as aprovadas são enviadas às autoridades.

 

TO: Teatro do Oprimido.


Teatro do Oprimido: Método sistematizado pelo teatrólogo Augusto Boal que visa à transformação de realidades opressivas, através de meios estéticos e a partir do diálogo entre os oprimidos.

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