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Fala de Agradecimento
– Ordem do Mérito Cultural

Augusto Boal, 08/10/05, Brasília

 

Eu tenho duas enormes dificuldades de falar em público em uma ocasião como esta.

A primeira grande dificuldade é começar a falar. É muito difícil. A segunda, muito mais difícil ainda, é parar de falar.

Por isso, para evitar transbordar o meu tempo e a vossa paciência, resolvi escrever minha fala. Perde-se a espontaneidade, mas impõem-se limites severos: duas ou três páginas que se consomem em três ou quatro breves minutos indolores: é perfeitamente suportável.

Começo:

Fui convidado para falar em nome de todos os agraciados, mas é evidente que não posso falar em nome de tantos artistas tão diferentes, quando precisamente nessa diversidade reside, em grande parte, a sua riqueza e a sua criatividade; mas posso, sim, falar em nome de tantos artistas tão semelhantes porque, muito além das diferenças, aqui estão muitos daqueles e daquelas que se alinham entre os mais identificados com o povo brasileiro.

O Governo Federal, através do seu Ministério da Cultura, ao nos oferecer este Prêmio, reconhece a importância do trabalho que temos feito ou fazemos; nós, ao aceitarmos sua oferta, reconhecemos o esforço e as realizações deste Ministério e deste Governo, no campo da Cultura nacional.

Hoje, aqui, tenho o dever e o prazer de ressaltar uma destas realizações de capital importância - concreta e simbólica: os Pontos de Cultura. Ainda tão jovens, espalhados por todo Brasil, já oferecem a oportunidade de realizarmos a síntese cultural que tantos de nós desejamos, e pela qual lutamos.

Ao se falar de Cultura, é comum ouvirmos uma expressão bastante ambígua, vaga, imprecisa, mas bem intencionada, que é a de se “levar a Cultura ao povo”. Contra isso, a priori, nada se pode dizer. Temos que levar sim, não só a Cultura mas também a Erudição, que é o conhecimento da Cultura dos outros: a ninguém fará nenhum mal o contato com as peças de Shakespeare e Molière - que, infelizmente, não eram brasileiros -; os quadros de Velásquez e Van Gogh, as sonoridades de Mozart e Beethoven.

Nós não devemos, porém - jamais! - esquecer que o povo tem a sua própria Cultura, que tempos atrás era preconceituosamente chamada de folk-lore. A Cultura do povo brasileiro, capaz de inventar a sua própria língua, era desvalorizada com uma palavra em língua estrangeira... Um disparate!

O povo também é Artista, porque essa é a condição humana: somos os únicos habitantes da Terra capazes de criarmos Metáforas, e a Arte é sempre uma Metáfora.

Uma política cultural humanística e democrática não pode pensar no povo como mero receptor passivo dos bens culturais alheios: os Pontos de Cultura devem, podem, e alguns já estão começando a promover essa troca, esse diálogo cultural que a todos enriquece.

Os Pontos são o começo da realização de um desejo manifestado pela classe artística em todas as últimas campanhas presidenciais, o que nos faz ter a certeza de que nossos outros legítimos anseios serão também satisfeitos.

Essa certeza se fortalece ainda mais agora diante da notícia de que a verba do Ministério da Cultura será dobrada – desculpem, hesitei muito, mas era impossível não falar nisso...

Nós, que conhecemos a visão popular que o Presidente Lula tem da Cultura; nós que conhecemos o Ministro Gilberto Gil, pois que ele é um dos nossos - estamos certos de que esse aumento será daqui para a frente geométrico e não apenas aritmético: não dois mais dois são quatro, mas sim dois vezes dois, quatro, 16, 256... até que se atinja o nível necessário para que seja possível levar a Cultura ao povo e, ao mesmo tempo, criar as condições para que o povo expresse a sua própria Cultura e participe como sujeito das transformações sociais e políticas que o Brasil precisa, e que nós sabemos necessárias e urgentes.

Isto não é uma reclamação, é uma oferta: estamos dispostos e somos capazes de realizar o sonho de uma Cultura não excludente, desde a de mais complexa realização como a de um cinema bem brasileiro que possa combater a invasão bárbara e massiva do cinema de inspiração guerreira holiudense; desde a preservação de nossos tesouros arqueológicos vinte e cinco vezes milenares, como os do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, que não podemos deixar abandonados, até aquela singela arte da rendeira em sua casa tecendo toalhas, e a dos artistas dançando capoeira, pintando, esculpindo ou fazendo teatro no meio da rua.

Dostoievski disse que só a beleza salvará o mundo. Porque só através do Belo, da Arte, será possível compreender o mundo na sua essência, e não apenas espantar-se diante da sua aparência. Como escreveu o filósofo Hegel, o Belo é o luzir da verdade através dos sentidos.

O Belo, criado por estes artistas que aqui estão e outros que hão de vir, ou vieram, e o Belo criado pela cidadania.

A cidadania que, quando se transforma de objeto em sujeito, cria o Belo... porque é Bela.

Muito obrigado.